Jesus Cristo o Heroi e Deus
Jesus Cristo
Heróis sempre os houve, sempre os haverá. Houve até uma época inteira deles, a época dos cavaleiros, daqueles que Miguel Cervantes imortalizou na figura de Don Quixote e sua Dulcineia. Que essas damas fossem moinhos de vento ou lavradeiras, tanto fazia, logo que o cavaleiro usasse para com elas do maior cavalheirismo.
Com esta visão do homem herói como pano de fundo, medito na heróica morte de Jesus Cristo. Quem dos heróis escolheria uma morte entre ladrões e tomasse na cruz até o lugar de Barrabás, um assassino? Essa forma ingloriosa de morrer hoje em dia seria mesmo a cadeira eléctrica; uma morte ignominiosa, em nada digna do Rei dos Reis.
Ao ladrão à sua direita, Jesus chega mesmo a prometer-lhe o paraíso. Que homem e Deus era esse? Como se pôde associar-se a ladrões, leprosos, marginalizados, gente de má vida, à escumalha da sociedade de então?
Quantos heróis se prontificariam a morrer por causa tão fútil, a do Amor ao Próximo?
Acreditanto sinceramente que Cristo foi, é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, sei que foi devido ao seu Amor, ou “Agapé” que ele, sendo Deus se fez homem. Como Deus, quis provar em si a condição humana, desde o berço de palha onde nasceu, até à cruz. Por esse Amor, colocou-se ao lado da humanidade mais desprezível para a salvar, da mesma forma que um pai ou uma mãe, por pior que sejam os filhos, os acompanham, os tentam ajudar e a encobrir.
Depois, choca-me a maneira como no nosso Credo, num só fôlego, fazemos Cristo nascer no seio da Virgem Maria para logo a seguir o fazer padecer sobre Pôncio Pilatos; para o deixar morrer tão depressa como nasceu; descer aos mortos esubir aos Céus em três dias.
Quem se lembra também mencionar em credo que ele também foi aquele que transformou a água em vinho; curou os leprosos, deu esperança aos aflitos, luz aos cegos; ressuscitou os mortos, e anunciou o Reino de Deus. Mestre, ele aprendeu e ensinou, pregou, celebrou o espírito de Deus em si. A sua vida,realmente, foi tão importante como a sua morte. Ele foi uma cartilha viva para a humanidade. A sua morte a lição final para todos os tempos e todas as gerações.
De certo, ao contrário do Credo que rezamos, Ele fez mais do que nascer e morrer como Deus, como mágico de Hamlin, por aqui passar, juntar o seu rebanho e subir aos Céus, para aí se sentar à direita de Deus à espera do fim do espectáculo. Não, ele também, pelo direito da sua encarnação, senta-se connosco, está connosco até ao fim dos tempos. Tornou-se naquele que nos representa, conhece o nosso íntimo, em quem estamos espiritualmente configurados numa nova criação.
Como São Paulo já dizia “Não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim.” Mente de todas as mentes, coração de todos os corações, ele é a medida de todas as medidas humanas, a “Windows” ou o “Interface Manager” de todos os tempos. Ele é o caminho e a verdade. Ninguém vai ao Pai senão por ele e através dele, essa a realidade. Assim, ele não deve ser lembrado apenas pelo seu sofrimento e morte, mas sim pela sua Vida, uma Vida em cujo os moldes a morte não cabe.
Quanto ao momento da cruz em si, é o momento ainda mais importante do que aquele da sua Transfiguração. Ali é que se efectua o pacto entre Deus e o homem, a transformação da pessoa de Jesus Cristo, filho de Maria, na Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.
Nesse contexto, a Cruz é, deveras, o ponto de encontro entre o homem, Jesus Cristo e o Deus em si. Isso é, num mundo imperfeito e causal, Cristo atinge a sua maturidade divina na Cruz. Ele entrega-se, Jesus, homem que é, nas mãos de Deus, seu Pai, seu próprio Ser.
Nenhum ser perfeito pode atingir a sua perfeição nesta realidade sem subverter essa mesma criação. A ápice da perfeição não cabe neste mundo, tanto quanto um oceano não cabe num cálice ou o universo dentro do sol, a própria luz na treva,na informática, um programa de “Windows” num programa de “Atari” ou de“Apple”, ou etc.
Assim, se ele não tivesse escolhido o seu próprio modo de morrer, morreria à mesma. Já no Jardim das Oliveiras ele suava sangue; pedia que o Pai lhe afastasse o cálice. Homem, ele pressentia que a sua natureza divina se intensificava e como tal sabia chegada a sua hora.
Portanto, aos sofistas de hoje em dia, que tentam convencer que Cristo não morreu na cruz, têm, realmente muita razão. Um Deus não morre; um Deus escolhe a morte para sua Glória. Não o mataram os pregos, nem as múltiplas feridas e escoriações, as chagas das mãos e pés, nem tão pouco onde o trespassaram com uma lança. O que o matou, foi a sua própria divindade, pois um Deus todo perfeito, omnipresente, omnipotente, infinito e eterno não cabia no seu corpo.
Em suma, se compararmos o momento da cruz ao momento em que um projéctil atómico atinge o núcleo de um simples átomo, temos o momento ímpar em que toda a criação se encadeia; quando o fim se torna no princípio; a vida escapole à morte, a treva é arrasada pela luz; o momento chave de toda a verdade, de toda a
luz e de toda a existência.
Todos nós Cristãos hoje em dia somos produtos dessa radioactividade do Calvário. Foi aí que a fusão de duas naturezas distintas, a do homem e a de Deus e vice-versa se reuniram na Aliança de Amor e de Perdão única em toda a história humana e do Espírito que nos marcam, nos marcarão até ao fim dos tempos, ou quando cada um de nós nos formos gradualmente da lei da vida pela morte nos libertando.
Silvério Gabriel de Melo
Terceira, Açores
