O Reino
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Por Ilhas dos Pensamentos
O Reino
Olho para o quintal de uma vizinha nossa que fica por baixo do balcão da
minha casa. Nesta estação em que a natureza se prepara para mais uma vez se
refazer no seu ciclo de vida, reparo que a figueira que outros anos se
estendia e cobria de uma forma viçosa de folhas e frutos, este ano secou.
Todo o Verão assim foi, mas em viagem e depois muito ocupado não tivera
tempo de perceber esse facto. Nesta época do ano em que noutros anos as
folhas gradualmente caíam deixando à vista os seus suculentos frutos, noto
que nem folhas nem frutos. A árvore simplesmente não deu nada. Ali agora só
uma ou outra ave ocasionalmente pára para descansar do seu vôo ou aprumar as
penas e nada mais. Os troncos e ramos torcicolosos trazem à mente um inferno
de Dante. Parecem formas humanas bestializadas, cristalizadas debaixo do céu
de Outono.
A velha, a dona, realmente nenhum proveito tirava dessa árvore. Os frutos,
que o ano passado foram muitos, brotavam e ali secavam. Muitos serviam para
alimentar os pássaros e outros, quando o vento açoriano começava a soprar
caíam indo apenas alimentar formigas, moscas e outros insectos e bichos no
solo. Assim, nem para si nem para os outros. Pouco era aproveitado. Seca,
essa figueira é agora uma acusação muda da natureza.
À noite, numa quinta-feira por uma razão ou outra, (talvez as eleições) à
meia-noite há de novo fogo de artifício. Os cães agitados não param de
ladrar e ladram até às três ou quatro da manhã, enquanto há balbúrdia de
festa lá em baixo na Praia da Vitória. Depois, gradualmente acalmam-se,
deitam-se para darem lugar aos galos a cantar por todo o lado.
É este o país de "brandos costumes" que tanto se promulga? Que país de
brandos costumes? Sem poder dormir com o barulho dos cães a ladrar sem
parar ao longe e por toda a vizinhança, mais o rebentar ocasional de
foguetes dos mais inticantes, à uma, às duas, duas e meia da manhã. De vez
em quando é algum carro sem freio nos dentes acelerando como se quisesse
despedaçar o mundo todo pela rua fora como se uma bomba disposta a explodir.
Mal disposto, respirando fundo, resmungo, "terroristas!!"
Confrange a actual situação da humanidade, do mundo. Até esta ilha no meio
do mar não foge à regra e manifesta-se nas suas mais iníquas qualidades do
amor próprio, hedonismo, de narcisismo fora de controle. Lá fora vê-se a
nação de valores mais nobres rastejar lado a lado com a nação de valores
mais baixos; notar que hoje em dia quem vale é quem mais falta de carácter
tem, que até o Catolicismo em que fomos criados, como a figueira da minha
vizinha, se seca aos poucos, não passa de uma igreja de ritos vãos que cada
vez mais se distancia do verdadeiro Cristianismo, ou do Cristianismo como
devia ser, falta-lhe a seiva.
Depois, rídiculo é o Bispo dos Açores, como no tempo do fascismo, vir
anunciar para a televisão que é um pecado não votar. Ridículo é o chefe do
governo que uma vezes orgulhosamente se diz não praticante, na hora do voto
fazer mesuras tais como a doação da Igreja do Colégio em Ponta Delgada para
a Igreja Católica. Tudo muito bonito, muito sensacionalista, muito oportuno.
Também, como explicar, como a própria natureza de um forma discriminativa
procure sempre os mais pobres e os mais fracos para vitimar, reduzir cada
vez a uma maior miséria e maior desgraça por este mundo fora?
São nessas alturas que perguntamos a nós mesmos: "então onde está esse Deus
de Amor e Caridade; de Compaixão e Justiça?" Será que realmente vive, se
importa, se interessa? Porque não são castigados antes os que erram, os que
perpetram a falta de justiça, de caridade, de misericórida? Por que não
intervem? Onde está a via justa?
"Homens de pouca fé!" ... "O meu reino não é deste mundo, se fosse"...
"Assim na terra como nos céus"... ecoam dentro de nós a jeito de resposta
argumentos dos nossos próprios pensamentos.
Uma foto é replica de uma verdadeira realidade. Nós todos sabemos que para
se conseguir uma fotografia foi preciso um negativo; uma chapa. A vida da
mesma forma é uma mera réplica, uma chapa de uma outra realidade, a
verdadeira e profunda realidade.
Não foi até Cristo quem disse, que seria mais fácil um camelo passar pelo
fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus?
Por isso para avaliarmos o estado das coisas vale observarmos tudo com essa
visão de opostos; pois, os verdadeiros ricos são os pobres; os
verdadeiramente importantes são os humildes; os sábios são aqueles que
sabem que nada sabem; os nobres são os que assumem a sua modéstia e
simplicidade, os santos são aqueles deprezados de todos, os que morrem são
os que vivem, os que vivem são os que morrem; o todo é o nada e o nada é o
todo.
Que se riem e caçoam os arrogantes, os que se julgam alguém, os que se fazem
centro do universo, se preocupam com a sua figura física, a sua potência,
sua sensualidade, virilidade, importância, opulência. Tempo virá que nada
disso lhes servirá - como a figueira no quintal da minha vizinha descobrirão
a seu tempo que nada vale a pena quando a alma é pequena.
Nestes tempos conturbados tenhamos antes sim mais pena do mau ladrão,
daqueles que vivem nas trevas; os famintos de atenção, de poder, de vazio;
dos que agem com desumanidade, e ganância; dos que parecem possuir o mundo,
serem donos da justiça e da verdade; dos que ditam a sua vontade aos outros.
Desses sim dever-se-á ter dó; pois com toda a sua magnanimidade, grandeza,
perícia, importância, chegarão ao fim como meros troncos, ramos
torcicolosos, sem seiva - formas dantescas, monstruosas, jurássicas, presas
de si mesmo, e da sua grande vaidade; cinzas num universo disposto a
arrefecer no espaço.
Silvério Gabriel de Melo, Terceira, Açores
