Coisas Destas Ilhas
"How Are You My Friend?"
Quando era pequeno e ia à missa, ensinaram-me a usar de respeito em não
falando, mantendo o silêncio. Por reverência produzia-se um ambiente de
cícios, de completa submissão. Desde então já aprendi que também se ora
entre aleluias ruidosas, com cânticos de jazz e muita efusão.
Em 1986 quando fiz uma viagem à Alemanha Ocidental e a Berlim Leste, por
todo o lado que visitava, impressionava-me um silêncio fora de comum das
pessoas no seu dia à dia. Como num ballet mudo as pessoas moviam-se como
autómatos com uma falta de expansividade impressionante. Por todo o lado
sentia-se uma atmosfera opressiva de gentes submetidas a um sistema que os
fazia ciciar, não estar à vontade na sua prórpia terra. Toda Berlin Leste
parecia uma grande igreja cujo o sacerdote invisível tudo controlava.
Aliás, esse "silêncio", essa falta de expansividade faz parte da cultura
europeia. Isso acusei por todo o lado da Europa onde vivi. Quantas vezes em
Antuerpes junto à catedral, mesmo no centro, notei esse "silêncio," essa
falta de expansividade que fazia uma praça inteira soar como um borburinho
abafado de gentes falando em semi-tons como se num teatro ou igreja
estivessemos. Com tanta cerimónia, ali sabia-se logo quem eram os
estrangeiros, especialmente os americanos e italianos só pelo tom de voz.
Da mesma forma no Norte da Alemanha as pessoas guardavam um silêncio, um
mutismo quase mórbido entre si, nos elevadores, teatros, autocarros,
comboio, por todo o lado. Como o seu clima, o europeu é frio. Essa reserva
que não permite a aproximação das pessoas, ou o à-vontade é uma herança das
muitas guerras e disputas, ódios e invejas que marcaram o íntimo europeu.
Não é pois por acaso que o rock e o jazz, as discotecas se tenham tornado
um culto entre nós. Esses tipos de música, em outras palavras, permitem uma
atmosfera de relaxamento, o oposto do culto onde até tossir era pecado.
Ao chegar aqui aos Açores depois de tantos anos num contexto germânico
imaginava o nosso povo um povo menos "frio", mais dado, até mais meigo, onde
nos poderíamos expressar com o à-vontade português. Viemos encontrar
contudo, o semblante "europeu" um urbanismo onde se cultiva essa ³frieza²,
essa reserva que não permite a efusão, o à-vontade, isso é, onde se não
encetam amizades de um dia para o outro, nem se conhece ou se quer conhecer
o próximo, os vizinhos. Isso combinado com a herança açoriana da Guerra dos
Cem Anos, de semblantes circunspectos e sisudos, transformam estas ilhas,
apesar da sua exiguidade, numa cultura sem sombra de dúvida europeia, com
atitudes das grandes cidades, de sobrolho carregado e "não me fales," "não
me olhes;" quanto mais finos, mais senhores de si mesmo, maior a sua redoma.
Foi nesse contexto que vim a conhecer o marido de uma colega minha da
Bermuda, que pescador e dono de um negócio lá, aqui passava parte do tempo,
especialmente no inverno, voltando de volta à sua ilha na primavera. Com
ele trazia uma expansividade que era um pouco da claridade do sol, e
diafaneidade do mar mais ao sul. Onde quer que ia encarávamos com o seu
sorriso e o seu brado "How are you doing my friend?" dito em tom alto e
brincalhão, sem contrangimentos, que faziam todos olharem à roda como se uma
bomba houvesse explodido entre eles. Fazia-o de uma forma álacre, bem
disposta ainda que não em tom de palhaçada de bodega. Era uma forma
descontraída e afável de alguém habituado a um ambiente igualmente aberto e
acolhedor. Ainda que não falasse português com todos comunicava e se dava
bem.
A certa altura, compraram uma casinha. Ele vindo da Bermuda arranjou a casa
e deu-lhe até um aspecto das casas da Bermuda. Um dia, ao pintar o telhado
de branco como o fazem na sua terra, caíu pelo telhado dentro e foi parar no
meio da casa por baixo. Isso foi num domingo. Como se lhe abriu uma dor,
levaram-no ao hospital imediatamente. Lá, depois de tiraram um Raio-X,
inspecionaram-no mesmo à luz da janela mais próxima. Afiançaram que tudo
estava bem e que não havia nada partido, que a dor passaria logo. Acontece
que, com o passar do dia, a dor tornou-se insuportável. Na segunda-feira
foram então à clínica americana onde ficaram a conhecer que afinal,
surpresa, tinha uma clavícula e um par de costelas partidas.
Depois deste incidente e algum tempo no nosso contexto húmido e corrosivo
onde ninguém se importa com ninguém, também o George, como ele se chamava
passou a ter um semblante açoriano; isso é mais sisudo e menos expansivo.
Pelo tempo da pesca nas Bermudas, deixei de o ver. Voltou no ano a seguir,
mas notava-se certamente que não estava de vontade. Vinha bronzeado, mas já
não trazia consigo o não se quê agradável e soalheiro da Bermuda. Pouco
tempo depois, a esposa demitiu-se, venderam a casa e do George e do seu "How
are you my friend," franco e brincalhão nunca mais. Hoje ao passar pela casa
deles parece que ouço o seu brado. Sem ele os Açores tomam uma tonalidade
escura própria das brumas que nos circundam. Como não conheço as Bermudas,
imagino-as ilhas claras de águas diáfanas, casas com telhados alvos,
pintadas de cores de bebés, tonalidades leves de mistura com branco. No meu
íntimo imagino também um sol quente e reparador.
Algum dia, prometo a mim mesmo, tenho que ir às Bermudas, saborear esse sol,
a sua luminosidade translúcida. Lá sorrir e bradar como o George de uma
forma franca e desinibida "Eh, how are you doing my friend? Long time no
see! Long time no see!"
Silvério Gabriel de Melo
Terceira, Açores