Por Estradas dos Pensamentos

Friday, June 22, 2007

Saudade

Depois de tanto tempo, a saudade
É uma lembança ténue, uma quimeraQ
ue no pensamento fica, feita espera
De si mesma, de alguma outra realidade

Já não é disto ou daquilo, é eternidade
Esta saudade que nos acompanha, que se preza
Nos faz olhar p’ra vida, sua natureza
É o único rasto que nos ficou da felicidade

Qual um vinho que nos oferece, o seu torpor
Nos confunde, nos empresta uma clareza
Nos rouba ela a nós mesmos com seu ardor

Ah, saudade, só tu é que és Portuguesa
Ilha eterna, sumida num mar de dôr
Este cálice que bebo, esta tristeza

Friday, October 27, 2006

O Reino

http://a-lingua-portuguesa.blogspot.com/2006/11/httpestradadospensamentos.html

Por Ilhas dos Pensamentos
O Reino

Olho para o quintal de uma vizinha nossa que fica por baixo do balcão da
minha casa. Nesta estação em que a natureza se prepara para mais uma vez se
refazer no seu ciclo de vida, reparo que a figueira que outros anos se
estendia e cobria de uma forma viçosa de folhas e frutos, este ano secou.
Todo o Verão assim foi, mas em viagem e depois muito ocupado não tivera
tempo de perceber esse facto. Nesta época do ano em que noutros anos as
folhas gradualmente caíam deixando à vista os seus suculentos frutos, noto
que nem folhas nem frutos. A árvore simplesmente não deu nada. Ali agora só
uma ou outra ave ocasionalmente pára para descansar do seu vôo ou aprumar as
penas e nada mais. Os troncos e ramos torcicolosos trazem à mente um inferno
de Dante. Parecem formas humanas bestializadas, cristalizadas debaixo do céu
de Outono.
A velha, a dona, realmente nenhum proveito tirava dessa árvore. Os frutos,
que o ano passado foram muitos, brotavam e ali secavam. Muitos serviam para
alimentar os pássaros e outros, quando o vento açoriano começava a soprar
caíam indo apenas alimentar formigas, moscas e outros insectos e bichos no
solo. Assim, nem para si nem para os outros. Pouco era aproveitado. Seca,
essa figueira é agora uma acusação muda da natureza.
À noite, numa quinta-feira por uma razão ou outra, (talvez as eleições) à
meia-noite há de novo fogo de artifício. Os cães agitados não param de
ladrar e ladram até às três ou quatro da manhã, enquanto há balbúrdia de
festa lá em baixo na Praia da Vitória. Depois, gradualmente acalmam-se,
deitam-se para darem lugar aos galos a cantar por todo o lado.
É este o país de "brandos costumes" que tanto se promulga? Que país de
brandos costumes? Sem poder dormir com o barulho dos cães a ladrar sem
parar ao longe e por toda a vizinhança, mais o rebentar ocasional de
foguetes dos mais inticantes, à uma, às duas, duas e meia da manhã. De vez
em quando é algum carro sem freio nos dentes acelerando como se quisesse
despedaçar o mundo todo pela rua fora como se uma bomba disposta a explodir.
Mal disposto, respirando fundo, resmungo, "terroristas!!"
Confrange a actual situação da humanidade, do mundo. Até esta ilha no meio
do mar não foge à regra e manifesta-se nas suas mais iníquas qualidades do
amor próprio, hedonismo, de narcisismo fora de controle. Lá fora vê-se a
nação de valores mais nobres rastejar lado a lado com a nação de valores
mais baixos; notar que hoje em dia quem vale é quem mais falta de carácter
tem, que até o Catolicismo em que fomos criados, como a figueira da minha
vizinha, se seca aos poucos, não passa de uma igreja de ritos vãos que cada
vez mais se distancia do verdadeiro Cristianismo, ou do Cristianismo como
devia ser, falta-lhe a seiva.
Depois, rídiculo é o Bispo dos Açores, como no tempo do fascismo, vir
anunciar para a televisão que é um pecado não votar. Ridículo é o chefe do
governo que uma vezes orgulhosamente se diz não praticante, na hora do voto
fazer mesuras tais como a doação da Igreja do Colégio em Ponta Delgada para
a Igreja Católica. Tudo muito bonito, muito sensacionalista, muito oportuno.
Também, como explicar, como a própria natureza de um forma discriminativa
procure sempre os mais pobres e os mais fracos para vitimar, reduzir cada
vez a uma maior miséria e maior desgraça por este mundo fora?
São nessas alturas que perguntamos a nós mesmos: "então onde está esse Deus
de Amor e Caridade; de Compaixão e Justiça?" Será que realmente vive, se
importa, se interessa? Porque não são castigados antes os que erram, os que
perpetram a falta de justiça, de caridade, de misericórida? Por que não
intervem? Onde está a via justa?
"Homens de pouca fé!" ... "O meu reino não é deste mundo, se fosse"...
"Assim na terra como nos céus"... ecoam dentro de nós a jeito de resposta
argumentos dos nossos próprios pensamentos.
Uma foto é replica de uma verdadeira realidade. Nós todos sabemos que para
se conseguir uma fotografia foi preciso um negativo; uma chapa. A vida da
mesma forma é uma mera réplica, uma chapa de uma outra realidade, a
verdadeira e profunda realidade.
Não foi até Cristo quem disse, que seria mais fácil um camelo passar pelo
fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus?
Por isso para avaliarmos o estado das coisas vale observarmos tudo com essa
visão de opostos; pois, os verdadeiros ricos são os pobres; os
verdadeiramente importantes são os humildes; os sábios são aqueles que
sabem que nada sabem; os nobres são os que assumem a sua modéstia e
simplicidade, os santos são aqueles deprezados de todos, os que morrem são
os que vivem, os que vivem são os que morrem; o todo é o nada e o nada é o
todo.
Que se riem e caçoam os arrogantes, os que se julgam alguém, os que se fazem
centro do universo, se preocupam com a sua figura física, a sua potência,
sua sensualidade, virilidade, importância, opulência. Tempo virá que nada
disso lhes servirá - como a figueira no quintal da minha vizinha descobrirão
a seu tempo que nada vale a pena quando a alma é pequena.
Nestes tempos conturbados tenhamos antes sim mais pena do mau ladrão,
daqueles que vivem nas trevas; os famintos de atenção, de poder, de vazio;
dos que agem com desumanidade, e ganância; dos que parecem possuir o mundo,
serem donos da justiça e da verdade; dos que ditam a sua vontade aos outros.
Desses sim dever-se-á ter dó; pois com toda a sua magnanimidade, grandeza,
perícia, importância, chegarão ao fim como meros troncos, ramos
torcicolosos, sem seiva - formas dantescas, monstruosas, jurássicas, presas
de si mesmo, e da sua grande vaidade; cinzas num universo disposto a
arrefecer no espaço.

Silvério Gabriel de Melo, Terceira, Açores

Christopher Columbus

Christopher Columbus and the Portuguese

Christopher Columbus (Colon) as we all know from our history books spent
many years in Portugal where he learned the art of navigating. He married
Dona Filipa Moniz de Perestrelo, daughter of Bartolomeu Perestrelo, Governor
of Madeira Island. They had a legitimate son, Diogo Colon, born in
Portugal.(http://www.apol.net/dightonrock/ columbus_was_100_portuguese.htm).
History books make it so simple and daring when they explain Columbus¹
voyage from Genoa, Italy to Lisbon Portugal. Arrived in Portugal this boy
prodigy learns all he has to learn about navigation and the Portuguese
language to somehow command the respect of the Portuguese and later Spanish
nobility and eventually marry a Portuguese lady of the nobility to later
approach the king of Portugal and ask for financial support for his voyage
to India, sailing West.
The books don't tell you, that to be a foreigner and not to be nicknamed
some thing like the "Genoese" or "Italian" is in itself quiet a deed. For
anyone coming from some other country in those days, the convention was to
be labeled according to the country of origin. "El Greco," himself underwent
such epithet for not being Spanish. Christopher Columbus (Colon) for some
reason was never subject to such a treatment. Besides that, being a
foreigner, Christopher Columbus, who sailed for more than ten years in the
Portuguese caravels, was never thrown overboard. There was a decree by King
John II that only Portuguese citizens could serve on the Portuguese ships -
"All foreigners were thrown overboard, by order of the King". (ibid)
Indeed Christopher Columbus' life is surrounded in mystery. There is a
believe that somehow he may have had Portuguese Jewish ancestry and in an
age when to be Jew became more and more dangerous, he and his son avoided
the whole issue by saying little about their true origins. Beside that, in
Portuguese Jews did flee to Antwerp and Amsterdam in the North, but also to
Italy, especially the area of Livorno, not too far from Genoa.
Focused in discovering lands and conquering lands for the Motherland, the
Portuguese proved themselves superb mariners but very poor chroniclers. No
one ever thought twice about gathering information for the future. History
in that sense favored the more powerful and astute Spain; a much powerful
country had the backing of the Holy Seat, the Pope himself in all its
undertakings. The Canary Islands, for example, which were discovered by the
Portuguese on one of their voyages, were quickly handed over to Spain by
decree of the Pope on Spain's claims to have discovered it before the
Portuguese. This led the Portuguese to move with caution and mark all the
lands they discovered with a "Padrão," a stone marker depicting the
Portuguese shield and other symbols that left no doubt in anyone¹s mind of
whose territory that was one was landing.
It is also known that the Portuguese sent out many scouting expedition to
explore the oceans. It is suspected that the Azores and even Brazil were
discovered many years before they officially were claimed for Portugal.
Christopher Columbus father-in-law himself is said to have in his possession
maps of the new world way in advance of Christopher Columbus' voyage. One
thing is certain, when the Pope agreed to have the New World divided between
Portugal and Spain at the Treaty of Tordesillas in the year 1494, Portugal
made great efforts to pull that line that divided the Atlantic in two areas
of control, as far West as it could. Some suspect that the Portuguese king
knowing of the existence of lands to the West, made sure that they would
have a stake in that part of the world. Not long after that, they
discovered Brazil.
One thing is certain, working for Spain, Columbus, upon his return to Spain
from his voyage to the New World in 1492, was humiliated by the Portuguese,
who thought he and his crew were up to no good. Columbus and his men had
made a promise that on the first land they came upon that they would pray to
the Virgin Mary as thanksgiving for their having survived some major tempest
out at sea. Landing at Santa Maria, one of the Azorean islands, his men
were thrown into jail, and he was kept at bay in his ship until the island
governor agreed to help him out.
Needless to say, many fine Portuguese mariners did choose to work for Spain.
Among them the most famous were Ferdinand Magellan, who was in charge of the
first voyage around the world. Another famous Portuguese working under the
Spanish flag was Cabrillo who was the first European responsible for landing
on California from the Pacific Ocean.(http://www.apol.net/dightonrock/
columbus_was_100_portuguese.htm).

Silvério de Melo
Juncal, Terceira




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Cagarros

Cagarros (Cory's Shearwater Birds)

This is the time of the year when "Cagarros," (Cory Shearwater Birds)
marine Azorean/Atlantic birds of the Albatross family come inland to brood.
They spend most of their time out in the open sea, fishing at night all year
long. They live up to forty years of age. Every year from February to
November they return to the islands where they were born to nest in the many
cliffs and crags that first saw them or even in holes they make on the
ground. In May the female Shearwater lays her only egg. Both she and the
male sit alternately on it for about fifty days. When the fledgling is born
it is nurtured by both parents during the period of three months until it is
time to return to the ocean and there stay until is time for brooding again.
Nocturnal birds, they have been living around this area for about fifty
million years, almost as long as the Atlantic Ocean itself. If you are out
night and you hear a crying above you in the dark, it¹s them in their
flight. They are blinded and thrown off course by the presence of light, so
that if you make a bonfire by the beach, before you know it, they will be
flying above you one after another making a noise as if someone saying, "I
cannot, cannot, cannot!" Azoreans say that their sounds remind one of the
Portuguese word for water, "Água" repeated as if by someone desperate for
water.
"Cagarros" is also what Azoreans teasingly call the people of Santa Maria,
the first island of the Azores to be discovered. The reason is the singsong
intonation of the way they speak. It sounds like the sound those birds make
in the middle of the night, so they were named accordingly.
This time of the year, when the "Cagarros," become more noticeable at night,
when they come and go on their food getting trips to and from the ocean, is
also invade the harvest time in the Azores.
Indeed, the Azoreans were self-sufficient, they grew everything they needed.
Today, one sees mostly cattle and pasture, but at one time, all of the
Azores islands were rich in grains as well as a variety of other crops that
made them self sufficient.
It was this wealth that made the Azores a granary of the Age of Discovery
and Expansion. As the Portuguese set off to discover the new world, they
would invariably stop here to replenish with wheat and fresh water.
The area where the Lajes airfield and airport are located today, for
example, was called "Ramo Grande," and that area happened to be one of the
most fertile cereal regions of the island. The wheat grown here was
transported to Angra and kept in huge underground silos found where now is
the "Alto das Covas," at the top of the Main street in Angra. The reason
that the wheat was stored in these underground silos or "Covas," literally
pits or holes, was to protect it from pirates who often attacked the island
in search of food.

This time of the year, was also grape harvest time. Today you hear of
Biscoitos and Porto Martins as areas where grapes are grown, but at one time
everyone grew what they needed, so that most everyone kept a patch of land
by the seashore, the "Fajãs", or land on steep slopes by the seashore,
reserved for the family¹s vineyard.
At this time of the year, they would throng to the ocean side, where many
even kept small cottages and wine cellars provided with wine presses, wine
caskets and other wine making utensils. There they would spend a few days
until the harvest (vindima) was done; the grapes had been sorted and crushed
to make wine.
This was the time of the year, then, that the islanders bonded with the
ocean, prepared their wine and celebrated. Bonfire get-togethers were very
common. The more people came down to celebrate, the more would stay around
to help with the harvest.
People who owned a wine press or a wine cellar would allow others to use
them for their own pressing of the grapes and preparation of wine. Wine
pressing took on many forms. Those settlers, who came from Northern
Portugal where it was common to press the grapes by stepping on them,
continued that tradition to this day. Others, probably, the more moneyed,
had wine presses.
The most famous of the Azorean wines are definitely the Pico Island wines.
As with the Madeira wine, it found its way outside the archipelago to honor
the tables of the Russian Czars themselves. More widespread were red table
wines or home made wines, or "Vinho de Cheiro" .

Today, when we are surprised by how much people of Terceira celebrate, we
tend to forget that all these celebrations stem from the very humble rural
or agricultural traditions of this island. Grounded on a farming, rural,
unindustrialized existence, every celebration is a manifestation of
harvest time, a time to bind, to come together, to share the bounty of the
land, as any normal country folk do.

Silvério Gabriel de Melo
Juncal, Terceira

Boa Sorte Portugal

Boa Sorte, Portugal!

Ver Portugal despertar para uma causa que nos une, e nos faça vibrar de
uma forma comum, sabe bem. Sabe bem, anotar o desejo de todos que Portugal
vença, que se comprove como um país com gana e valor como devia ser. Por
todo o lado há o grito "Força Portugal!" Por todo o lado a ovação
"Por-tu-gal! Por-tu-gal!"
Num país entregue às músicas e ritmos estrangeiros, diluído em hábitos,
costumes e ambições dos outros; com gostos emprestados de ingleses e
franceses, com um fraco sentido de orgulho próprio, globalizados,
marginalizados por conta própria, dá gosto notar que o Euro nos uniu e nos
fez assumir uma identidade nacional, como devia ser pelo menos estas duas
semanas.
Nesta euforia nacional quer-se que Portugal ganhe, que nos honre com a
vitória. Parece até que a magia de Dom Sebastião está no activo. Depois da
entrada infeliz em que pela primeira vez neste jogos se perdia na própria
casa, o jogo de quinta-feira contra a Rússia conseguiu reanimar o nosso
entusiasmo. Agora está em vencermos a Espanha, a nossa vizinha.
Neste Portugal, portanto não há português que se honre que não esteja a
torcer por Portugal. Ironicamente, é aos chutos e pontapés de bola que
afirmaremos o nosso valor e o esplendor. Para isso, Portugal tem, ainda que
custe, que se erguer das brumas do entorpecimento colectivo patente na
sociedade portuguesa nos dias de hoje. O jogo é apenas simbólico, está
claro, mas em Portugal precisa-se de fazer algo que mostre que ainda temos
genica, que ainda conseguimos respirar e pulsar por conta própria sem ajudas
de A ou B.
Num mundo como aquele que os ingleses trouxeram até ao Algarve, de racismo e
de desdém, quanto mais desviados estivermos de causas comuns, mais fácil
tornarmo-nos os objectos ou vítimas de tais vis demonstrações; mais fácil
continuarem a lidar connosco como se gente de um terceiro mundo, a quem se
poderá faltar ao respeito. Isso é, se não temos respeito por nós próprios,
quem terá?
Depois do empreendimento de grande ambição que foi este Euro de 2004, perder
é dar um pontapé no nosso próprio orgulho. Que Portugal ganhe no jogo contra
a Espanha, seria bom. Que Portugal o poderá fazer, esperemos que sim. Se
assim não for,que ao menos saibamos continuar unidos em causas comuns que
nos levem às vitórias merecidas e nos livrem do nosso triste fado de sermos
eternamente a louça de terceira numa Europa de porcelana fina.

Silvério Gabriel de Melo
Juncal, Terceira, Açores





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Dia de Camoes

Camões and the Lusiads

Thursday, June 10, was the Day of Portugal, the day that the Portuguese
celebrate their epic poet, Luís Vasco de Camões.
Born of a noble family from Galiza, a Portuguese speaking area of Northern
Spain, Camões wrote The Lusiads. This he did to honor the Portuguese who
ventured to India and the Far East in the Age of Discovery.
The Lusiads, after the epic tradition of the Odyssey (Iliad), is a praise to
the Portuguese as the descendents of the Lusitanian, the Celtic group of
people who, for their courage and bravery, kept Rome at bay for quite a long
time, and only after Rome paid traitor money, did it fall to its dominion.
Being a distant relative of Vasco da Gama, Camões takes to heart this
journey into India singing, with a rapture that equals that of Homer and
Dante, all the Portuguese feats in the Age of Discovery; calling out for the
Gods in mythology and making comparisons that place the Portuguese along
with the classic heroes of the past.
Highly talented, beside this epic work, he wrote sonnets, ballads, odes and
pastoral poems, and with such lyrical power as to eclipse the famed lyricism
of the Portuguese balladeers and minstrel singers of the Portuguese and
Spanish courts of the past whose fame went beyond the Portuguese and Spanish
courts*. It was from this source lyricism that Elizabeth Browning herself
drew the inspiration for her famous Sonnets of the Portuguese.
Then besides being the poet and playwright (Camões also wrote prose and
three plays), he was an ardent wooer, a feisty warrior, a free thinker, one
who spoke his mind, and branded his sword whenever he thought justice was on
his side.
His impatient and rebellious nature led him into problems with the people of
the court, and especially with the Queen and King themselves. More than once
he landed in jail. At one point, as a form of punishment, he was sent to
North Africa to fight the Moors < Portugal was in control of two very
important cities there. Portugal had from the onset of the Age of Discovery
meant to expand to North Africa and annex all of that area. It was in one
of those skirmishes with the enemy that Camões lost one of his eyes and had
to, from that time on, wear a patch over his eye.
Soon after this incident, he did return to Portugal, but again for
non-conformance to court and Church, and due to his temperamental and
impulsive nature, was sent to India and finally Macao, where he held a
government position. It was there that he worked on his famous epic, the
Lusiads.
At one point he decides to travel back home. On one stretch of his voyage
off the coast of Cambodia, he suffered a shipwreck. He lost everything he
had, and had to struggle with his very life to reclaim his Lusiads from the
fury of the waves.
Followed by a slave woman that he had fallen in love with, he left the Asian
coast until he reached Mozambique. Unable to finance his voyage back to
Portugal, he stayed sometime until some of his friends came upon him and
helped him with the money he needed to get back to Lisbon. In 1470, he
returned, a broken man, to the country which he had turn into song.
Back in Lisbon, he was confronted with the reality of a city and a society
much different from the idealized image he had kept of it. He found Lisbon
and the Portuguese society one of petty people, a corrupt and spoiled
society that he was quick to rebuke.
After much effort, he was allowed to read his Lusiads to the Young King, Don
Sebastião, who was in the very preparations to attack North Africa, meaning
to once and for all annex that whole region for Portugal. Before he left,
he did agree to pay Camões a yearly stipend, which barely met his immediate
needs. Disillusioned and ailing, Camões was looked after by a slave boy,
who went around asking for alms, so that both could survive in the
supercilious, arrogant society that was Lisbon¹s.
Camões died shortly after in the year 1579. This after Don Sebastião¹s own
death in the battle at Alcácer-Quibir, in North Africa in the year 1578.
Some even say that Camões died with the Mother Country, since soon
afterwards, Portugal fell to the Spanish King, Don Felipe, and all the glory
that it had been for about two hundred years, (1357-1578) came to an end.
Portugal¹s territories all over the globe were either absorbed by Spain or
lost to its enemies the Dutch, the French and the English. The very
Portuguese armada became part of the ill-fated Spanish Armada that was
completely wiped out by the English. After Don Sebastião¹s death Portugal
would never again regain its formal power and glory. Portugal¹s golden age
had come to an end.
In terms of lyricism, there was no one before or after Camões that could
equal him. He is looked at as Portugal¹s national bard and many of his
sonnets, odes and songs have been put to music, especially the fado.
The sixth most spoken language in the world and the third European Language
of world-wide-span, Camões is looked at as a Hero of the Portuguese
Language. A ballad singer, an epic poet, a soldier, a hero, he became what
many Portuguese have become, a world wanderer, an adventurer, a man at home
in any part of the world, but his own country.

Silverio Gabriel de Melo
Juncal, Terceira, Açores

A Logica da Guerra

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A lógica da guerra

A lógica de fazer guerra não faz sentido
- Quem guerra faz, não sabe estar em paz
D. Quixote, em tudo e nada vê um inimigo
Sobre um burro segue-o Sancho Pança atrás.

Na guerra a única lei é a do gatilho
Manda quem for mais cruel e mais capaz
De abater, ferir, matar - a guerra é isso
Por Dulcineia, quem quer que ela seja, tudo se faz.

A guerra é uma loucura, demência atroz
Onde cada um se arma em herói e algoz
Pela Pátria se batalha, se lhe dá a vida.

Do valor da guerra está cheia a história
Do seu pavor, horror, da sua glória
Só Um pela Paz, veramente, sua vida deu um dia.

Querer falar da actual conjectura do Iraque e achar-lhe lógica é o mesmo que
achar lógica em qualquer manicómio. Nada nesse conflito faz sentido. Diria
que até se confirma a tese de que qualquer povo tem o seu inimigo no grupo
com quem partilha a maior afinidade. Assim, americanos e árabes como
inimigos comungam de características e interesses muito semelhantes, por
princípio, o petróleo. Inimigos são espelhos de si mesmo.
Pena é que, através das graves decisões feitas à luz da arrogância e do
poder, comprometida e ultrajada ficou a própria democracia, essa Dulcineia
americana que, em vez de exemplo, está a demonstrar a pior falta de respeito
pela dignidade e direitos humanos dos outros.
Aplicada como uma rodilha, cheia de fumaraça para confundir as abelhas nas
suas colmeias, em nome da democracia perpetraram-se, perpetram-se crimes
que ficarão na história. O grau de incoerência com os valores mais sublimes
da nossa civilização é tal, que até os americanos na sua casa estão a dar a
mão à palmatória - algo muito incomum.
Como portugueses, à luz destes episódios quixotescos, em que já a Espanha,
mais radical, se demitiu, vemos Portugal qual Sancho Pança fielmente seguir
o seu senhor, alguém que lhe der a ilusão de glória e de proveito. Mais
sagaz do que os poucos aproveita-se da loucura do outro para alimentar a sua
própria ganância.
Como nos levou quase cinquenta anos a acordar de um erro que foi o fascismo,
acredito que levará tantos quantos anos para de novo reconhecermos que algo
está errado, que nos associámos a uma causa pateticamente pouco democrática
e pouco honesta. Moinhos de vento, todos os dias anotamos as mortes de
jovens por uma causa idiota, especialmente quando a democracia não é bem o
que o povo iraquiano queria - ainda não tinha chegado a esse ponto.
Esperemos que as eleições que estão para vir venham corrigir o rumo da
democracia, tão ignobilmente representada.

Silvério Gabriel de Melo
Terceira, Açores

Portugal's Carnation Revolution

Portugal¹s Carnation Revolution

In 1908 King Carlos and his older son were killed. His brother son, King
Manuel II escaped the attack and took over the throne. Due to a growing
republican feeling and popular disinterest with the monarchy, in October of
1910, the King and his family had to flee to Great Britain. The country
became a republic. Portugal's experience with democracy, however, the next
sixteen years was not a harmonious one. Finally, in 1926 a military
dictatorship chose Salazar to head the Ministry of Finance. He resigned two
months later, but was asked in 1928 to head that same ministry. With
Salazar¹s becoming the Prime minister in 1940, Fascism was the form of
government the Portuguese knew until 1974. For the time period of forty
seven years, Portugal, Salazar and Fascism became one. During World War II,
Portugal aligned ideologically with Hitler, but decided to become a neutral
state due to its colonial interests in India and Africa, which depended on
Great Britain, its old time ally and colonial partner. After the War and in
the late 1950's, Portugal saw whatever was left of India at Goa, Damão and
Dio go, this after a very short but bloody struggle in those three colonies.
In the 1960's, it became involved in a three front conflict with rebel
forces in Angola, Portuguese Guine and Mozambique. It was Portugal's
Vietnam at three fronts. For the next 14 years, all of Portugal's energy
went to fight in this self consuming conflict that led to disenchantment in
the military for the government. After the loss of many lives and a
general dissatisfaction for Salazar¹s and Marcelo Caetano's Fascist regime,
the military itself chose to put an end to the dictatorship they had created
almost fifty years earlier. On April 25, 1974, thirty year ago on Sunday,
Portugal woke up to the Carnation Revolution that surprised the world. The
military captains or the MFA, the Military Movement responsible for this
coup, had been planning in secret for this rebellion. Immediately, the
people supported this movement. From one day to the next, Portugal¹s
Fascism, the longest on the continent of Europe, was over. The next few
years saw Portugal move dangerously to the left. Under the influence of the
socialists and communists, the colonies were left to themselves. Portugal
turned away from its close to six hundred year colonial ties and started
staking out a new path and a return to its origins and Europe. Immersed in
the cold War World, this revolution made the headlines for months in a row.
The cry of the day was, "A People United Shall Never Be Defeated."
During the period right after this "Carnation Revolution," there was general
exhilaration, which soon led to confusion. Immerse in the middle of a Cold
War, Portugal moved from a vision of a federal government, made up of
autonomous regions where the old colonies would be an integral part
(Spínola), to a socialistic, communistic view that permitted the quick
independence of the colonies and a strong turn to socialism at home. It was
during this phase that a Movement for Independence appeared in the Azores.
After Portugal¹s allegiance turned to a more moderate form of government, a
strong pro-autonomy movement gave rise to an Azorean autonomy and the
supporters of independence faded in the background. Today, the Azores have
a self government, however, watched over closely by a minister of the
republic, a figure head that many in the Azores find an insult and hindrance
to true self government. This minister has the power to override any local
decision that comes in direct conflict with national law or national
interests. After 30 years of democracy, Portugal sees itself as a member of
the European Union. As a member of that Union, it abides by rules and
guidelines shared by all other members. Portugal's Close to Fifty Year
Fascist legacy has thus given way to a more modern and democratic
Weltanschauung, especially with the younger generation, the ones who were
born after the Carnation Revolution.
April 25 will definitely forever be imprinted in the memory of every
Portuguese. It marked an end of a nightmare and a beginning of something
new - liberty, democracy. Sunday, Portugal looks back to reminisce about
this very special event in its recent history. Portugal definitely is not
the same country it was thirty years ago and there are plenty of reasons for
celebrating.

Silvério Gabriel de Melo
Terceira, Açores

How Are You My Friend

Coisas Destas Ilhas
"How Are You My Friend?"

Quando era pequeno e ia à missa, ensinaram-me a usar de respeito em não
falando, mantendo o silêncio. Por reverência produzia-se um ambiente de
cícios, de completa submissão. Desde então já aprendi que também se ora
entre aleluias ruidosas, com cânticos de jazz e muita efusão.
Em 1986 quando fiz uma viagem à Alemanha Ocidental e a Berlim Leste, por
todo o lado que visitava, impressionava-me um silêncio fora de comum das
pessoas no seu dia à dia. Como num ballet mudo as pessoas moviam-se como
autómatos com uma falta de expansividade impressionante. Por todo o lado
sentia-se uma atmosfera opressiva de gentes submetidas a um sistema que os
fazia ciciar, não estar à vontade na sua prórpia terra. Toda Berlin Leste
parecia uma grande igreja cujo o sacerdote invisível tudo controlava.
Aliás, esse "silêncio", essa falta de expansividade faz parte da cultura
europeia. Isso acusei por todo o lado da Europa onde vivi. Quantas vezes em
Antuerpes junto à catedral, mesmo no centro, notei esse "silêncio," essa
falta de expansividade que fazia uma praça inteira soar como um borburinho
abafado de gentes falando em semi-tons como se num teatro ou igreja
estivessemos. Com tanta cerimónia, ali sabia-se logo quem eram os
estrangeiros, especialmente os americanos e italianos só pelo tom de voz.
Da mesma forma no Norte da Alemanha as pessoas guardavam um silêncio, um
mutismo quase mórbido entre si, nos elevadores, teatros, autocarros,
comboio, por todo o lado. Como o seu clima, o europeu é frio. Essa reserva
que não permite a aproximação das pessoas, ou o à-vontade é uma herança das
muitas guerras e disputas, ódios e invejas que marcaram o íntimo europeu.
Não é pois por acaso que o rock e o jazz, as discotecas se tenham tornado
um culto entre nós. Esses tipos de música, em outras palavras, permitem uma
atmosfera de relaxamento, o oposto do culto onde até tossir era pecado.
Ao chegar aqui aos Açores depois de tantos anos num contexto germânico
imaginava o nosso povo um povo menos "frio", mais dado, até mais meigo, onde
nos poderíamos expressar com o à-vontade português. Viemos encontrar
contudo, o semblante "europeu" um urbanismo onde se cultiva essa ³frieza²,
essa reserva que não permite a efusão, o à-vontade, isso é, onde se não
encetam amizades de um dia para o outro, nem se conhece ou se quer conhecer
o próximo, os vizinhos. Isso combinado com a herança açoriana da Guerra dos
Cem Anos, de semblantes circunspectos e sisudos, transformam estas ilhas,
apesar da sua exiguidade, numa cultura sem sombra de dúvida europeia, com
atitudes das grandes cidades, de sobrolho carregado e "não me fales," "não
me olhes;" quanto mais finos, mais senhores de si mesmo, maior a sua redoma.
Foi nesse contexto que vim a conhecer o marido de uma colega minha da
Bermuda, que pescador e dono de um negócio lá, aqui passava parte do tempo,
especialmente no inverno, voltando de volta à sua ilha na primavera. Com
ele trazia uma expansividade que era um pouco da claridade do sol, e
diafaneidade do mar mais ao sul. Onde quer que ia encarávamos com o seu
sorriso e o seu brado "How are you doing my friend?" dito em tom alto e
brincalhão, sem contrangimentos, que faziam todos olharem à roda como se uma
bomba houvesse explodido entre eles. Fazia-o de uma forma álacre, bem
disposta ainda que não em tom de palhaçada de bodega. Era uma forma
descontraída e afável de alguém habituado a um ambiente igualmente aberto e
acolhedor. Ainda que não falasse português com todos comunicava e se dava
bem.
A certa altura, compraram uma casinha. Ele vindo da Bermuda arranjou a casa
e deu-lhe até um aspecto das casas da Bermuda. Um dia, ao pintar o telhado
de branco como o fazem na sua terra, caíu pelo telhado dentro e foi parar no
meio da casa por baixo. Isso foi num domingo. Como se lhe abriu uma dor,
levaram-no ao hospital imediatamente. Lá, depois de tiraram um Raio-X,
inspecionaram-no mesmo à luz da janela mais próxima. Afiançaram que tudo
estava bem e que não havia nada partido, que a dor passaria logo. Acontece
que, com o passar do dia, a dor tornou-se insuportável. Na segunda-feira
foram então à clínica americana onde ficaram a conhecer que afinal,
surpresa, tinha uma clavícula e um par de costelas partidas.
Depois deste incidente e algum tempo no nosso contexto húmido e corrosivo
onde ninguém se importa com ninguém, também o George, como ele se chamava
passou a ter um semblante açoriano; isso é mais sisudo e menos expansivo.
Pelo tempo da pesca nas Bermudas, deixei de o ver. Voltou no ano a seguir,
mas notava-se certamente que não estava de vontade. Vinha bronzeado, mas já
não trazia consigo o não se quê agradável e soalheiro da Bermuda. Pouco
tempo depois, a esposa demitiu-se, venderam a casa e do George e do seu "How
are you my friend," franco e brincalhão nunca mais. Hoje ao passar pela casa
deles parece que ouço o seu brado. Sem ele os Açores tomam uma tonalidade
escura própria das brumas que nos circundam. Como não conheço as Bermudas,
imagino-as ilhas claras de águas diáfanas, casas com telhados alvos,
pintadas de cores de bebés, tonalidades leves de mistura com branco. No meu
íntimo imagino também um sol quente e reparador.
Algum dia, prometo a mim mesmo, tenho que ir às Bermudas, saborear esse sol,
a sua luminosidade translúcida. Lá sorrir e bradar como o George de uma
forma franca e desinibida "Eh, how are you doing my friend? Long time no
see! Long time no see!"

Silvério Gabriel de Melo
Terceira, Açores

Sunday, October 22, 2006

Vida Ilha

Somos filhos de Deus, um Deus ausente
Somos filhos de Deus, um Deus em viagem
Ele faz-se presente na vida da gente
Ele faz-se connosco, sua a nossa imagem

O Deus de um universo espalhado no imenso
O Deus do infinito, infinitamente fragmentado
No nosso coração ele vive, faz-se centro
De toda a criação ele nos coloca ao seu lado

“Eloi, Eloi , lema sabachthani!”
Eloi, Eloi, depois da morte vem a vida
O nosso corpo é uma doca que nos prende a si
Onde barcos atracam, a nossa alma é uma ilha

Viver é deixar chegar e partir navios ao nosso cais
Saber que para além do mar muita terra há ainda mais

SGDM

Quando era criança lembro-me de irmos para a doca de Ponta Delgada, naquela altura de então, recentemente construída, para nos despedirmos ou irmos buscar quem quer que fosse que partisse ou chegasse de viagem.

Junto aos grandes navios transponhamos o nosso mundo ilhéu e éramos transplantados para um mundo surreal, isso especialmente à noite, quando a luzes dos navios acesas davam a impressão de estarmos junto a cidades fluviais. Cada navio era uma essência de países, continentes para além da nossa realidade que nos fascinava.

Uma aura de luz e de encanto dominava a doca que até visitávamos em dias feriados ou fins de semanas, visto que não haviam restrinções algumas e a entrada para ela era de livre acesso.

Durante o dia, com o Sol a brilhar parecia então uma bela sereia espraiando-se no meio do mar. Em noites estreladas essas luzes conseguiam trazer à terra o mesmo brilho e encanto que o enorme universo por cima de nós. Tudo luzia, resplandecia de uma forma mágica ali.

Olhando a superfície da água, encantavamo-nos com as cintilações reluzentes, o capacho coruscante, qual tapete mágico, que se estendia até à Avenida Marginal no outro lado da baía. Dali a cidade de Ponta Delgada brilhava com a presença desses navios e sentia-se nas suas veias o salgado e profundeza do mar. A doca era assim um altar do deus Posidon , do deus neptuno, que ali defrente de Ponta Delgada se estendia dando à cidade um carácter próprio do mar, do vasto mar.

Sempre que um navio chegava ou partia ouvia-se o prolongado silvo, o apito agigantado que nos fazia, criança que éramos, estremecer por dentro. Ao ouvi-los sabíamos que um vapor entrava na doca. Da Avenida marginal assistíamos à rebocagem dos navios pelos barcos pilotos. Havia sempre um navio que chegava e um navio que partia. Quando a doca estava cheia, a cidade fazia até mais sentido. A doca completava-a. Era parte integrante dela.

Se o navio era estrangeiro, então a fascinação era ainda maior. As ruas enchiam-se de turistas com suas excentricidades; gente loura e alta, bem vestidos, de óculos escuros, máquinas fotográficas aos ombros e hálitos e odores perfumados. Eram ondas de mundos diferentes que invadiam a terra e lá deixavam a sua formosa presença.

Da Ilha viajava-se naquela altura só por grande necessidade. A maior parte das pessoas até nunca viajava. Com esses navios estavam ligadas as vidas e destinos de muita gente. Para longe iam os seminaristas que iam estudar para serem padres na Terceira. Durante a guerra no ultramar, eram os soldados que partiam ou vinham de Lisboa. Havia um vai e vem de marinheiros, de soldados, de oficiais; a cidade era banhada por ondas a seguir de ondas deles, quer dos nossos, quer dos barcos de guerra estrangeiros.

Ir para doca esperar por alguém ou despedirmo-nos de alguém, era pois uma ocasião especial. Aí os barcos tinham um cariz dominante. Era mundos que se imponham ao nosso mundo. Os passageiros debruçados sobre as amuradas dos navios pareciam seres vindos de outras dimensões, com vidas e existências paralelas ao do nosso mundo, que ali estavam, mas também estavam longe ao mesmo tempo. Do nosso vazio ilhéu olhàvamos fascinados, colados ao chão como hiptnotizados por tais presenças.

Dos momentos mais excitantes do nosso passeio à doca, era então quando o navio se afastava. Depois de acenarmos um adeus às pessoas que partiam junto ao casco do navio, súbitamente por uns pequenos momentos eramos confrontados com o fenómeno da partida. Por estarmos próximo, quando o navio se deslocava, ficávamos com a sensação que era a doca e tudo à nossa roda que se movimentava. Víamos de súbito, conforme acenavámos para as pessoas do barco, tudo correr e afastar-se. O navio parecia parado, e éramos nós que navegavamos, nos afastavamos dali. Só depois de alguns momentos caíamos em nós e reparávamos que era o navio que se distanciava de nós, que não era não a doca que se afastava do navio. A ilusão era infalível.

Assim aprendi que com cada partida, partíamos nós. Com cada chegada, chegávamos nós. Por isso tenho saudades da nossa cidade, Ponta Delgada, ali no meio do Oceano Atlântico e essa sua doca feita um altar ao deus Posidon; das suas oblações de chegadas e partidas, de gente que vinha e de gente que ía, dessas inúmeras ocasiões de se viajar em terra firme e nos sentirmos na realidade filhos do Mar.

Até que Ponta Delgada era qual navio mãe no meio do vasto oceano. Era o seu dia à dia navios como o Carvalho Araújo, o Cedros, o Ponta Delgada, o Funchal; quem os poderá ter esquecido? Algo neles era uma encarnação do Sol e do Mar que nos incutiam com o desejo de partir, de viajar, de conhecer o mundo.

Da nossa casa víamo-los aproximar e afastar assim como víamos os golfinhos, a toninhas saltar em bando em dias cinzentos de Inverno. Fazíamos parte desse painel vivo do mar, dessa tela bonita que era Ponta Delgada, cidade atlântida. Ali a presença da doca era realmente fulcral.

Hoje em dia, Ponta Delgada está a atingir essa fascinação que sempre teve, que lhe vem do mar. Hoje são os projectos da Portas do Mar que lhe irão dar aquele fascínio que se vivia na doca de outrora e que a farão ainda mais aquilo para o que foi criada, uma cidade virada para o mar.
...
Hoje da minha casa vejo chegar e partir aviões e uns vão e outros vêm de guerras, assim mesmo como nos tempos em que era criança. Do continente chega a TAP como um Carvalho Araújo ou aviões em rotas internacionais como um Príncipe Perfeito de terras mais longe. A Sata, como o nosso Cedros, o nosso Ponta Delgada ou Funchal certinha parte e chega, sobrevoa mesmo por cima do meu terraço. Irónicamente é exactamente o mesmo cenário. Algum dia por aqui irão aterrar as naves espaciais volvidas do espaço e aqui será um elo de estações satélites lá fora. Aposto. Tudo parece servir para aquilo que se foi criado afinal.

Até, bem vistas as coisas, todos nós somos docas da Vida. Viver, é ser-se cais para um mundo em viagem; é ser porto para uma mão cheia de ambições, de vontades, desejos e sonhos. São as amarras as nossas emoções, sentimentos, pensamentos, memórias. Vive-se como se espera numa doca o momento da partida.

Silvério Gabriel de Melo

Thursday, October 12, 2006

Um Reino de Sorrisos

Um Reino de Sorrisos

Se os olhos são as janelas da alma
Os sorrisos as suas varandas são
Sorri quem o próximo como a si mesmo ama
Sorri quem tem o Sol no coração.


O bom sorriso como a luz do Sol aquece
Nos protege e ilumina com o seu ardor
Quem assim sorri espalha o bem, oferece
Aos outros toda a amizade e seu amor.


Sorrisos há que fazem lembrar jardins
De malmequeres e de gerânios às janelas
Sorrisos há que nos guiam, serafins
Sorrisos que têm o fulgor das estrelas.


Qualquer sorriso é do sol um pedaço
Reflectido sobre as ondas do mar
É reflexo meigo, reflexo mágico
Milhares de sóis em mares de luz a flutuar.


Sorrisos ternos quão finos, quão distintos
Suaves como a luz da madrugada
Delicados, bonitos, abrem caminhos
Nos iluminam, deixam-nos a alma maravilhada.


Se só a criatura humana tem lágrimas para chorar
Se só a alma humana acredita num Porvir
Ó Mãe da Humanidade a quem eu aprendi a rezar
Com teu Cristo ao colo ensina-nos a sorrir.

SGDM

Os bébés são conhecidos por lindos sorrisos quando dormem, que o povoatribui à sedução da lua que se lhes aproxima em sonhos e as maravilham. Sãoreflexos que imitam sorrisos tão doces e emblemáticos que parecem advir deuma realidade etérica a que os bébés se ligam por afinidades de naturezaprópria. Lembro-me quando os meus filhos dormiam em seus berços e sorriam,pareciam em comunicação com alguma realidade fantástica que me emocionava só em os observar.

Hoje em dia os meus filhos cresceram; um deles patrulha as avenidas deBagdah. O mundo todo parece ter vestido farda e falta-lhe aquele sorrisodevido à humanidade. Rodeados de fisionomias quer de ódio, rancor, medo,pavor, ou apenas falta de segurança ou de saúde, quem é que se pode dar ao luxo de sorrir?

Gostaria até de entreter um mundo à José Saramago, onde em vez de ficaremtodos cegos como no seu Tratado da Ce-gueira, ficariam antes todos a sorrircom aquela doçura que conhecemos nos infantes.Seria uma realidade fantástica, um mundo inocente e verdadeiramente puro.Assim sorrindo, reflectiríamos aquele Sol distante e divino em que devíamosacreditar com toda o ser e alma. Esse sorriso, se possível, iriadesconsertar o mundo roubar-lhe o sobrolho franzido, tomar o lugar dossorrisos de lesmas sobre os lábios daqueles que tudo medem, e julgam tudo saber. Imaginem só, se o mundo pudesse assim sorrir!?

Esse sorriso, qual Sol distante e supremo, impor-se-ia às trevas e à lama das mil e uma "Kristal Nachts" e holocaustos da falta de humanidade.Sorrisos dos sorrisos entre nós existiria a perfeita liberdade e democracia.Apoiados na inocência e graça desses sorrisos, ali não pertenceriam aqueles que de princípio não se consentissem a esse sorriso, a essa realidade. É que esse Reino dos Sorrisos, como o Reino dos Céus, não se fecha, fecharia para ninguém. Isso é, nesse Reino dos Sorrisos não entraria só quem o nãodesejasse.

Quando os senhores padres, ministros, pastores e outros senhores do triângulo do Religiosamente Correcto, filistinamente citam a Cristo ou a Bíblia para negar a entrada no Reino dos Céus das "abominações", aberrações humanas quer originais ou adquiridas por vícios ou convicções de vida, sou eu que franzo o sobrolho.

Que tipo de Cristandade é essa que já julga o próximo? Eu julgava que só cabia a Cristo, que está sentado à direita do Pai, o julgar quem quer que fosse? Se o reino dos Céus é como esse Reino dos Sorrisos que acima me referi, sorrir-se-ia com a mesma graça e humanidade até para a pessoa mais nojenta e desagradável, essa a norma das normas. Porquê fechar as portas doReino para quem seja, se até Cristo o prometeu ao ladrão cruxificado à suadireita? Se há a ignorância, a cultura da pornografia do erotismo, da concupiscência,da perversão, da pedofilia e indecência, tem que haver a fraqueza, o vício e o abuso. Isso é que se terá que corrigir e erradicar para que não hajam os fracos, os que molestam, os que se confudem, que seguem os maus caminhos. Negar entrada ao Reino dos Céus ou desprezar os que erram, os pedófilos, homosexuais, tarados, viciados, efeminados, pervertidos, é o mesmo que voltar ao universo dos que acreditam que os judeus, os sarracenos, os negros, os bastardos, os ricos, os pagãos nunca poderão entrar nos Reino dos Céus. Se o pecado, essas características abomináveis existem é porque fazem parteda natureza humana. Acusar e barrar entrada aqueles cujas naturezas criadas pelo próprio Deus os fez quem são é uma falta de humanidade tão vil como o pôr fim a vida aos leprosos, doentes mentais, incapacitados, aos enfermos e moribundos, é uma forma de nazismo subversivo à dignidade eterna do homem. A caridade de Deus abrange todos, até ao ser mais contemptível, esses que o mundo rápidamente marginaliza e rodeia de estigma.


Quem cita, pois, a Bíblia para fazer vingar a sua razão, fá-lo muitas vezes assim como os paparazzi manejam uma câmara de filmar. Só apontam parao que lhes convém.Não foi Cristo também, que disse logo a seguir à sua afirmação o ser mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha a um rico entrar no Reino dos Céus, àqueles que perguntavam, "Então senhor, quem se salvará?" e Ele respondeu, "O que é impossível para o homem, é possível para Deus." (S.Lucas18)

Como o meter-se uma bola numa baliza, só deixar entrar quem for chutado com o pé direito, ou que exclama cada dois minutos um "Aleluia," seria idiotice. Graças a Deus, o Reino dos Céus não é controlado pelos SS, como era oAuschwitz ou por nenhum chefe de equipa de desporto, nem de Igreja alguma. Lá, nesse Reino, estou certo, entrarão as Madalenas e os Madalenos, até assassinos, até pedófilos. Quem somos nós humanos para julgar quem for?

Como bom Pai, Deus abre os braços para todos igualmente. Para ele tudo é possível. Ele é que criou o homem e só ele o conhece na intimidade. Estou certo que esse Deus, ao contrário dos homens dos dias de hoje que interpretam qualquer sorriso, amabilidade ou delicadeza como os jovens dos liceus e soldados na tropa como "gay," abrenúncio, aberração, não afasta ninguém, nem aproxima ninguém por mera piedade e misericórdia. Fá-lo como a si mesmo; ama-os igual senão mais ainda, porque afastados do Caminho, (ou que ele já criou afastados do normal ou da norma) vivem contudo uma missão igual a qualquer outra criatura e que também por eles e até por eles é que veio ao mundo.

Quem passa as rasteiras, impõe normas de pudor e de aceitação como se oReino dos Céus fosse um clube, ou uma associação futebolística são os homens. Só não entra no Reino dos Céus aqueles que julgam que o têm garantido porque não pecaram, não se permitiram ao erro; porque o quiseram comprar ou vendê-lo como Judas. De anjos está o inferno cheio.

Enfim, se voltarmos ao Reino dos Sorrisos, se fossemos capazes de sorrir da forma inocente, livre, cheia de graça das crianças, não enxergaríamos tanto nojo, nem estranharíamos quem quer que fosse pela invulgaridade das suas naturezas. Sorriríamos realmente para todos sem acusação, diversão, preconceito, sim, mas com um sorriso inocente como são os sorrisos das almas puras, dos bébés.

Quem se digna fechar a porta aos Reino dos Céus contra este ou aquele dos seus irmãos, por mais podre de ricos, de eróticos, de maricas, já pecou, pois olha para o mundo e o seu próximo com os olhos prevaricadores da cultura que ensina a dar mais valor aos valores do eroticismo, da virilidade ou potência ou preponderância da carne.

Num mundo de sorrisos não importa se já se foi carranca. O que importa é sorrir e nem todos compreendem isso.

O espírito humano por sua conta, sem a verdadeira presença de Deus,dispõe-se à carranca da intolerância e do preconceito onde quer que a alma ou corpo sejam fracos. Como um vírus do demónio, tornam-se leprosos e abomináveis aqueles que não compreendemos, que tenham valores diferentes dos nossos, que sejam vitímas do mundo e das circunstâncias que os trouxeram à luz. Por isso Cristo fez-nos querer amar não só ao próximo, mas também ao inimigo e esse inimigo precisamente aquele por quem realmente sentimos o maior repúdio, os celerados, os pedófilos, os gente da Alcaida, os talibãs,os efiminados, os homosexuais, as lésbicas, os intoxicados, os caídos por terra, a escumalha da terra. Tempo virá quem nem se ser velho se consentirásem o mesmo menosprezo e revolta que se dedicou a leproso, judeu ou a negro;ou hoje se dedica aos sem abrigo, aos "gays" aos morrendo de AIDS ou aos Arabes....


Numa base na Alemanha numa creche militar foi presenciada a seguinte cena; uma funcionária da creche, esposa de um militar de cargo alto passou por um bébé de raça africana, de feições que Deus lhe deu, julgando-se a sós, fez ao jeito de mimo anglo-saxónico, louro e de olho azul, o seguinte comentário em voz alta, "Tu pareces-te um macaco!" Quem observou a cena foi uma outra funcionária de cargo mais baixo de raça africana. Ela não apresentou queixa.

Por isso enquanto houver no mundo gente, por mais bem conceituada que se tenha que se atreva a comentários de "cima para baixo" nós todos como humanidade pecamos. Pois humanos são todos os que até se parecem como os macacos e entre eles os leprosos, os que morrem de AIDS, os ou as que vão para a cama com outros homens ou outras mulheres."

Toda a pessoa humana na pessoa de Cristo único e verdadeiro pastor tem o seu valor e o seu direito ao Reino dos Céus se a isso aprender a querer e a sedispor. Por isso, depois de ler um artigo sobre a incapacidade dos piores dos pecadores, tais como pedófilos, celerados, efiminados, homosexuais, etc. de poderem entrar no Reino dos Céus, reajo e apresento queixa.

Não nos esqueçamos que Deus não obedece aos critérios dos homens, especialmente aos homens de uma cultura ou era obsecada pelo erotismo, o sexo ou contra-sexo, que isso tudo não passa de palha que se deve dar decomer aos burros.

Numa espiga de trigo vale o grão e mais nada. Que haja um pouco de chuva e muito Sol é o que ele precisa. Deixemo-nos de ruminar na palha e dar a cada grão a luz, o sorriso devido para que cresça e se faça pão. Para o verdadeiro cristão isso é que vale. Por isso o verdadeiro Cristão não se alarma quando a própria Igreja parece estar também cheia de palha. De palha foram consumidos muitos santos e santas, quando nas fogueiras os torturaram. Dê-se portanto a Deus o que é de Deus, o grão; aos burros o que é dos burros, a palha, é o que se deve fazer com todo o coração. Saibamos antes sorrir como as crianças, o menino sobre a palha deitado e não julgar e acusar mas simplesmente viver e deixar viver.


É que Deus deixou um mandamento novo, "Amai-vos uns aos outros." Aquelesque afastam e desviam o próximo e o despreza por esta ou aquela razão, qualquer que seja, é que já perdeu o seu lugar nesse mesmo Reino, pois esse não se fecha para ninguém que o procure, mas sim para quem o quer interdir ao seu próximo.

Silvério Gabriel de Melo
Terceira, Açores

Copyright © 1997/2001 Portuguese TimesAutorizada a reprodução de artigos publicados nesta página desde que mencionada a origem

Saturday, May 06, 2006

Holy Spirit Sundays in the Azores

Holy Spirit Sundays-Domingas

After Easter here in the Azores, come the Holy Spirit functions or “Domingas, (Sunday functions). The Azoreans, like the microclimates existent in these islands, are by nature divisive and divergent in character, but they are united on this one deeply ingrained tradition and faith, which is their Holy Spirit Cult.“Impérios,” or “Empires” are what they call the various ceremonies that will take place for the next eight weeks and which entail the butchering of the Holy Spirit Feast cow, or ox on the Thursday or Friday before the actual function.

On Sunday morning fireworks announce the time when participants must convene on a Holy Spirit cortege to the local church. Children and people who have pledged this function to the Holy Spirit carry silver crowns on their heads and are accompanied by other children bearing Holy Spirit banners that represent a dove surrounded by shiny silver rays. After mass those carrying the crowns are consecrated to the Holy Spirit by the sprinkling of water and a prayer dispensed by the priest. The cortege occasionally accompanied by a philharmonic returns home for a communal meal called a “bodo.” This meal, after medieval tradition, was opened to the community in general. At one time it served the purpose of feeding the poor in town, but many opened it to anyone who came in to eat. Lately it is becoming more restricted. Only people who are invited can attend, although, courtesy has it that no one is ever denied a place at the table. A kind of communal Thanksgiving meal, the host makes provision to have plenty of food for everyone. The meal itself consists of Holy Spirit soup, a meat soup, “alcatra” or beef stew. It is accompanied by wine, and possibly by sweet bread and sweet rice.

The crown and the Holy Spirit banners themselves are displayed in a “throne room,” or where people may come in to view and to pray. As new Christians, and the majority of those of Jewish background practiced this tradition, the reverence given the Torah, the sacrifice sheep and other sacrificial utensils, is placed on all the Holy Spirit cult paraphernalia. So, the crown and banners, even the Holy Spirit oxen are rendered a special reverence as sacred symbols of the Holy Spirit Himself.

After the “bodo” on Sunday afternoon, the whole congregation of people, praying and singing carries the crown and all the banners to the next host. The two groups meet at one point and exchange a shower of flowers in honor of the Holy Spirit. As one group, they convene in the home of the new host, where a throne room is waiting decorated for the occasion. Everyone gathers to pray and welcome the Holy Spirit insignia, the crown, banners and rods. There is celebration and a party afterwards.

The origins of this cult go back to medieval convictions that the coming of the Lord Holy Spirit was at hand. A monk by the name of Joaquin de Fiore is identified as the precursor of such cult. This belief was particularly spread by Franciscan monks, who were disciples of a certain Cistercian or Benedictine Order, established in 1089 at Citeaux, France. They were convinced that a New Age of the empire of the Holy Spirit was on its way. It was an Age analogous to that of the Aquarius, where peace, brotherhood, true Christian, democratic harmony would take place. They foresaw a time when everyone would be sharing or coming together as one. With the Bubonic or Black Plague all around them, the arrival of the Portuguese at these no-man-lands, people by a sea of monsters and fears beyond their audacity, the more compelling was the drive to piety and good will. Armed with this cult, the new settlers faced the horrors of living on the edge and end of the world with added resiliency to whatever might have come their way.

Stories are told of innumerous miracles of lava flows that spared whole towns and those places where the Holy Spirit Crowns or banners were present. They firmly believed that the Holy Spirit could tame the powers of nature and so equipped, they faced this strange and doomed world on the brink of Earth.

The Spanish born Portuguese queen Isabel influenced the cult by her devout faith in the Holy Spirit. It is said that at the church in Alenquer, where she, like all foreign born Portuguese queens had her private palace, imbued by the holiness of a Pentecostal celebration one year, dared what no European Queen had dared. She took her crown and knighted or crowned the poorest of the poor in the kingdom. Next to the chagrin of the noble and shock of her courtiers, she invited those same ragged people to join her at a court after mass festive dinner, the “bodo.” Every year from then on, the Queen and King invited the poorest of the poorest for the Pentecostal crowning and their royal meal afterwards. If in England the Magna Carta guaranteed the common people a say before the King, in Portugal, through religious persuasion, the common people found a way to equal their kings, at least for eight weeks in the year. The cult became so popular, that the King and Queen invested certain “fidalgos” or squires among the people the privilege of becoming “mordomos,” head stewards of these ceremonies. They started being the ones in charge of the crowning and banquets after mass an the whole works.

A feast of the people, by the people and for the people, it is a time when anyone can for a day become royalty. While this cult almost totally disappeared in continental Portugal, it faired well among the New Christians and people from all over Portugal that settled here, as well as with the foreign element among them i.e. Flemish and Bretons.Every year, therefore, for eight weeks after Easter, culminating with Pentecostal and Trinity Sundays, all of the Azores comes alive with Holy Spirit Functions or “Impérios.” They are all around us. If you hear late evening fireworks or early morning fireworks; and if you wake Sunday morning to a philharmonic band going by, know that the Azoreans are celebrating their “Domingas,” or Holy Spirit Sundays, a tradition that goes back about six hundred years and helped shape the Azorean character from Santa Maria to o Corvo.

Silvério Gabriel de MeloTerceira, Açores

holy Spirit Sundays in the Azores

Holy Spirit Sundays-Domingas

After Easter here in the Azores, come the Holy Spirit functions or “Domingas, (Sunday functions). The Azoreans, like the microclimates existent in these islands, are by nature divisive and divergent in character, but they are united on this one deeply ingrained tradition and faith, which is their Holy Spirit Cult.“Impérios,” or “Empires” are what they call the various ceremonies that will take place for the next eight weeks and which entail the butchering of the Holy Spirit Feast cow, or ox on the Thursday or Friday before the actual function.

On Sunday morning fireworks announce the time when participants must convene on a Holy Spirit cortege to the local church. Children and people who have pledged this function to the Holy Spirit carry silver crowns on their heads and are accompanied by other children bearing Holy Spirit banners that represent a dove surrounded by shiny silver rays. After mass those carrying the crowns are consecrated to the Holy Spirit by the sprinkling of water and a prayer dispensed by the priest. The cortege occasionally accompanied by a philharmonic returns home for a communal meal called a “bodo.” This meal, after medieval tradition, was opened to the community in general. At one time it served the purpose of feeding the poor in town, but many opened it to anyone who came in to eat. Lately it is becoming more restricted. Only people who are invited can attend, although, courtesy has it that no one is ever denied a place at the table. A kind of communal Thanksgiving meal, the host makes provision to have plenty of food for everyone. The meal itself consists of Holy Spirit soup, a meat soup, “alcatra” or beef stew. It is accompanied by wine, and possibly by sweet bread and sweet rice.

The crown and the Holy Spirit banners themselves are displayed in a “throne room,” or where people may come in to view and to pray. As new Christians, and the majority of those of Jewish background practiced this tradition, the reverence given the Torah, the sacrifice sheep and other sacrificial utensils, is placed on all the Holy Spirit cult paraphernalia. So, the crown and banners, even the Holy Spirit oxen are rendered a special reverence as sacred symbols of the Holy Spirit Himself.

After the “bodo” on Sunday afternoon, the whole congregation of people, praying and singing carries the crown and all the banners to the next host. The two groups meet at one point and exchange a shower of flowers in honor of the Holy Spirit. As one group, they convene in the home of the new host, where a throne room is waiting decorated for the occasion. Everyone gathers to pray and welcome the Holy Spirit insignia, the crown, banners and rods. There is celebration and a party afterwards.

The origins of this cult go back to medieval convictions that the coming of the Lord Holy Spirit was at hand. A monk by the name of Joaquin de Fiore is identified as the precursor of such cult. This belief was particularly spread by Franciscan monks, who were disciples of a certain Cistercian or Benedictine Order, established in 1089 at Citeaux, France. They were convinced that a New Age of the empire of the Holy Spirit was on its way. It was an Age analogous to that of the Aquarius, where peace, brotherhood, true Christian, democratic harmony would take place. They foresaw a time when everyone would be sharing or coming together as one. With the Bubonic or Black Plague all around them, the arrival of the Portuguese at these no-man-lands, people by a sea of monsters and fears beyond their audacity, the more compelling was the drive to piety and good will. Armed with this cult, the new settlers faced the horrors of living on the edge and end of the world with added resiliency to whatever might have come their way.

Stories are told of innumerous miracles of lava flows that spared whole towns and those places where the Holy Spirit Crowns or banners were present. They firmly believed that the Holy Spirit could tame the powers of nature and so equipped, they faced this strange and doomed world on the brink of Earth.

The Spanish born Portuguese queen Isabel influenced the cult by her devout faith in the Holy Spirit. It is said that at the church in Alenquer, where she, like all foreign born Portuguese queens had her private palace, imbued by the holiness of a Pentecostal celebration one year, dared what no European Queen had dared. She took her crown and knighted or crowned the poorest of the poor in the kingdom. Next to the chagrin of the noble and shock of her courtiers, she invited those same ragged people to join her at a court after mass festive dinner, the “bodo.” Every year from then on, the Queen and King invited the poorest of the poorest for the Pentecostal crowning and their royal meal afterwards. If in England the Magna Carta guaranteed the common people a say before the King, in Portugal, through religious persuasion, the common people found a way to equal their kings, at least for eight weeks in the year. The cult became so popular, that the King and Queen invested certain “fidalgos” or squires among the people the privilege of becoming “mordomos,” head stewards of these ceremonies. They started being the ones in charge of the crowning and banquets after mass an the whole works.

A feast of the people, by the people and for the people, it is a time when anyone can for a day become royalty. While this cult almost totally disappeared in continental Portugal, it faired well among the New Christians and people from all over Portugal that settled here, as well as with the foreign element among them i.e. Flemish and Bretons.Every year, therefore, for eight weeks after Easter, culminating with Pentecostal and Trinity Sundays, all of the Azores comes alive with Holy Spirit Functions or “Impérios.” They are all around us. If you hear late evening fireworks or early morning fireworks; and if you wake Sunday morning to a philharmonic band going by, know that the Azoreans are celebrating their “Domingas,” or Holy Spirit Sundays, a tradition that goes back about six hundred years and helped shape the Azorean character from Santa Maria to o Corvo.

Silvério Gabriel de MeloTerceira, Açores

Holy Spirit Sundays in the Azores

Holy Spirit Sundays-Domingas

After Easter here in the Azores, come the Holy Spirit functions or “Domingas, (Sunday functions). The Azoreans, like the microclimates existent in these islands, are by nature divisive and divergent in character, but they are united on this one deeply ingrained tradition and faith, which is their Holy Spirit Cult.“Impérios,” or “Empires” are what they call the various ceremonies that will take place for the next eight weeks and which entail the butchering of the Holy Spirit Feast cow, or ox on the Thursday or Friday before the actual function. On Sunday morning fireworks announce the time when participants must convene on a Holy Spirit cortege to the local church. Children and people who have pledged this function to the Holy Spirit carry silver crowns on their heads and are accompanied by other children bearing Holy Spirit banners that represent a dove surrounded by shiny silver rays.


After mass those carrying the crowns are consecrated to the Holy Spirit by the sprinkling of water and a prayer dispensed by the priest. The cortege occasionally accompanied by a philharmonic returns home for a communal meal called a “bodo.” This meal, after medieval tradition, was opened to the community in general. At one time it served the purpose of feeding the poor in town, but many opened it to anyone who came in to eat. Lately it is becoming more restricted. Only people who are invited can attend, although, courtesy has it that no one is ever denied a place at the table. A kind of communal Thanksgiving meal, the host makes provision to have plenty of food for everyone.

The meal itself consists of Holy Spirit soup, a meat soup, “alcatra” or beef stew. It is accompanied by wine, and possibly by sweet bread and sweet rice. The crown and the Holy Spirit banners themselves are displayed in a “throne room,” or where people may come in to view and to pray. As new Christians, and the majority of those of Jewish background practiced this tradition, the reverence given the Torah, the sacrifice sheep and other sacrificial utensils, is placed on all the Holy Spirit cult paraphernalia. So, the crown and banners, even the Holy Spirit oxen are rendered a special reverence as sacred symbols of the Holy Spirit Himself.After the “bodo” on Sunday afternoon, the whole congregation of people, praying and singing carries the crown and all the banners to the next host. The two groups meet at one point and exchange a shower of flowers in honor of the Holy Spirit. As one group, they convene in the home of the new host, where a throne room is waiting decorated for the occasion. Everyone gathers to pray and welcome the Holy Spirit insignia, the crown, banners and rods. There is celebration and a party afterwards.

The origins of this cult go back to medieval convictions that the coming of the Lord Holy Spirit was at hand. A monk by the name of Joaquin de Fiore is identified as the precursor of such cult. This belief was particularly spread by Franciscan monks, who were disciples of a certain Cistercian or Benedictine Order, established in 1089 at Citeaux, France.

They were convinced that a New Age of the empire of the Holy Spirit was on its way. It was an Age analogous to that of the Aquarius, where peace, brotherhood, true Christian, democratic harmony would take place. They foresaw a time when everyone would be sharing or coming together as one. With the Bubonic or Black Plague all around them, the arrival of the Portuguese at these no-man-lands, people by a sea of monsters and fears beyond their audacity, the more compelling was the drive to piety and good will. Armed with this cult, the new settlers faced the horrors of living on the edge and end of the world with added resiliency to whatever might have come their way. Stories are told of innumerous miracles of lava flows that spared whole towns and those places where the Holy Spirit Crowns or banners were present. They firmly believed that the Holy Spirit could tame the powers of nature and so equipped, they faced this strange and doomed world on the brink of Earth.

The Spanish born Portuguese queen Isabel influenced the cult by her devout faith in the Holy Spirit. It is said that at the church in Alenquer, where she, like all foreign born Portuguese queens had her private palace, imbued by the holiness of a Pentecostal celebration one year, dared what no European Queen had dared. She took her crown and knighted or crowned the poorest of the poor in the kingdom. Next to the chagrin of the noble and shock of her courtiers, she invited those same ragged people to join her at a court after mass festive dinner, the “bodo.”

Every year from then on, the Queen and King invited the poorest of the poorest for the Pentecostal crowning and their royal meal afterwards. If in England the Magna Carta guaranteed the common people a say before the King, in Portugal, through religious persuasion, the common people found a way to equal their kings, at least for eight weeks in the year. The cult became so popular, that the King and Queen invested certain “fidalgos” or squires among the people the privilege of becoming “mordomos,” head stewards of these ceremonies. They started being the ones in charge of the crowning and banquets after mass an the whole works.A feast of the people, by the people and for the people, it is a time when anyone can for a day become royalty. While this cult almost totally disappeared in continental Portugal, it faired well among the New Christians and people from all over Portugal that settled here, as well as with the foreign element among them i.e. Flemish and Bretons.Every year, therefore, for eight weeks after Easter, culminating with Pentecostal and Trinity Sundays, all of the Azores comes alive with Holy Spirit Functions or “Impérios.” They are all around us. If you hear late evening fireworks or early morning fireworks; and if you wake Sunday morning to a philharmonic band going by, know that the Azoreans are celebrating their “Domingas,” or Holy Spirit Sundays, a tradition that goes back about six hundred years and helped shape the Azorean character from Santa Maria to o Corvo.

Silvério Gabriel de MeloTerceira, Açores

Espírito Santo

Gente há que se envergonha de ser cristã
Da Igreja se afasta, a acusa, renega Cristo
Ser cristão é ser humano, é ser amigo
É amar Deus como o seu próximo, querer o Bem.

Sem Cristo torna-se o mundo desumano
Sem Ele torna-se a vida passageira
Ele é o Sol que a alma ilumina, a luz primeira
Sem Ele só existe treva, tristeza, desengano

Lembremo-nos só que Ele...

Cingiu-se à Cruz no sacrifício mais nefando
Fundiu-se ao Deus de Amor, de Vida e Caridade
E Feitos num deram à luz à humanidade.
Aquele que connosco caminha e segue, o Espírito Santo

Esse é o Guia, o Programa, a Voz, a Chama
Esse é o Sinal, é a Aragem, o Sopro, a Calma
O Suspiro que nos alimenta a vida e a alma
Esse é a Glória do Deus que como a si nos quer e ama

No Espírito Santo, com o Espírito Santo, pelo Espírito Santo
Temos uma Estrada aberta até Deus e a Felicidade
Ele é o que-como para o universo é a gravidade
Nos faz a todos luzeiros num céu de luz e encanto

Assim, pois, mais do que à democracia, quero o seu Império
Pois só Ele cria a vida, promove o ser e a razão
Só Nele há a Liberdade, o Amor, a Luz, o Pão
Na orgânica Dele somos, na orgânica dele vive o Verbo...

Gente há que se envergonha de ser Cristã
Da Igreja se afasta, a acusa, renega Cristo
Ser Cristão é querer Deus, crer em seu filho
Mais no Espírito Santo, Fonte de Vida, Amor e Bem

Silvério Gabriel de MeloTerceira, Açores

Saturday, April 29, 2006

Jesus Cristo o Heroi e Deus

Jesus Cristo

Heróis sempre os houve, sempre os haverá. Houve até uma época inteira deles, a época dos cavaleiros, daqueles que Miguel Cervantes imortalizou na figura de Don Quixote e sua Dulcineia. Que essas damas fossem moinhos de vento ou lavradeiras, tanto fazia, logo que o cavaleiro usasse para com elas do maior cavalheirismo.

Com esta visão do homem herói como pano de fundo, medito na heróica morte de Jesus Cristo. Quem dos heróis escolheria uma morte entre ladrões e tomasse na cruz até o lugar de Barrabás, um assassino? Essa forma ingloriosa de morrer hoje em dia seria mesmo a cadeira eléctrica; uma morte ignominiosa, em nada digna
do Rei dos Reis.

Ao ladrão à sua direita, Jesus chega mesmo a prometer-lhe o paraíso. Que homem e Deus era esse? Como se pôde associar-se a ladrões, leprosos, marginalizados, gente de má vida, à escumalha da sociedade de então?

Quantos heróis se prontificariam a morrer por causa tão fútil, a do Amor ao Próximo?

Acreditanto sinceramente que Cristo foi, é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, sei que foi devido ao seu Amor, ou “Agapé” que ele, sendo Deus se fez homem. Como Deus, quis provar em si a condição humana, desde o berço de palha onde nasceu, até à cruz. Por esse Amor, colocou-se ao lado da humanidade mais desprezível para a salvar, da mesma forma que um pai ou uma mãe, por pior que sejam os filhos, os acompanham, os tentam ajudar e a encobrir.


Depois, choca-me a maneira como no nosso Credo, num só fôlego, fazemos Cristo nascer no seio da Virgem Maria para logo a seguir o fazer padecer sobre Pôncio Pilatos; para o deixar morrer tão depressa como nasceu; descer aos mortos esubir aos Céus em três dias.

Quem se lembra também mencionar em credo que ele também foi aquele que transformou a água em vinho; curou os leprosos, deu esperança aos aflitos, luz aos cegos; ressuscitou os mortos, e anunciou o Reino de Deus. Mestre, ele aprendeu e ensinou, pregou, celebrou o espírito de Deus em si. A sua vida,realmente, foi tão importante como a sua morte. Ele foi uma cartilha viva para a humanidade. A sua morte a lição final para todos os tempos e todas as gerações.


De certo, ao contrário do Credo que rezamos, Ele fez mais do que nascer e morrer como Deus, como mágico de Hamlin, por aqui passar, juntar o seu rebanho e subir aos Céus, para aí se sentar à direita de Deus à espera do fim do espectáculo. Não, ele também, pelo direito da sua encarnação, senta-se connosco, está connosco até ao fim dos tempos. Tornou-se naquele que nos representa, conhece o nosso íntimo, em quem estamos espiritualmente configurados numa nova criação.


Como São Paulo já dizia “Não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim.” Mente de todas as mentes, coração de todos os corações, ele é a medida de todas as medidas humanas, a “Windows” ou o “Interface Manager” de todos os tempos. Ele é o caminho e a verdade. Ninguém vai ao Pai senão por ele e através dele, essa a realidade. Assim, ele não deve ser lembrado apenas pelo seu sofrimento e morte, mas sim pela sua Vida, uma Vida em cujo os moldes a morte não cabe.

Quanto ao momento da cruz em si, é o momento ainda mais importante do que aquele da sua Transfiguração. Ali é que se efectua o pacto entre Deus e o homem, a transformação da pessoa de Jesus Cristo, filho de Maria, na Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Nesse contexto, a Cruz é, deveras, o ponto de encontro entre o homem, Jesus Cristo e o Deus em si. Isso é, num mundo imperfeito e causal, Cristo atinge a sua maturidade divina na Cruz. Ele entrega-se, Jesus, homem que é, nas mãos de Deus, seu Pai, seu próprio Ser.

Nenhum ser perfeito pode atingir a sua perfeição nesta realidade sem subverter essa mesma criação. A ápice da perfeição não cabe neste mundo, tanto quanto um oceano não cabe num cálice ou o universo dentro do sol, a própria luz na treva,na informática, um programa de “Windows” num programa de “Atari” ou de“Apple”, ou etc.

Assim, se ele não tivesse escolhido o seu próprio modo de morrer, morreria à mesma. Já no Jardim das Oliveiras ele suava sangue; pedia que o Pai lhe afastasse o cálice. Homem, ele pressentia que a sua natureza divina se intensificava e como tal sabia chegada a sua hora.

Portanto, aos sofistas de hoje em dia, que tentam convencer que Cristo não morreu na cruz, têm, realmente muita razão. Um Deus não morre; um Deus escolhe a morte para sua Glória. Não o mataram os pregos, nem as múltiplas feridas e escoriações, as chagas das mãos e pés, nem tão pouco onde o trespassaram com uma lança. O que o matou, foi a sua própria divindade, pois um Deus todo perfeito, omnipresente, omnipotente, infinito e eterno não cabia no seu corpo.


Em suma, se compararmos o momento da cruz ao momento em que um projéctil atómico atinge o núcleo de um simples átomo, temos o momento ímpar em que toda a criação se encadeia; quando o fim se torna no princípio; a vida escapole à morte, a treva é arrasada pela luz; o momento chave de toda a verdade, de toda a
luz e de toda a existência.

Todos nós Cristãos hoje em dia somos produtos dessa radioactividade do Calvário. Foi aí que a fusão de duas naturezas distintas, a do homem e a de Deus e vice-versa se reuniram na Aliança de Amor e de Perdão única em toda a história humana e do Espírito que nos marcam, nos marcarão até ao fim dos tempos, ou quando cada um de nós nos formos gradualmente da lei da vida pela morte nos libertando.

Silvério Gabriel de Melo
Terceira, Açores

O Espirito Santo

O Espírito Santo

A semana passada fomos, eu e a minha esposa a uma sessão de Espiritismo. Rodeados de um ambiente New Age por todo o lado nesta ilha somos confrontados com novas tendências, desde aos párocos self-made às práticas de mezinhas e love potions. É de tal forma a preponderância de novas doutrinas e novas tendências, combinadas com a lassitude e desinteresse Cristão que nos julgamos na Califórnia esotérica, hippie e descabeçada.

Os Açores conseguiu assim um novo visual espiritual que combina com as grandes transformações na sociedade ilhota em que vivemos. Até está na moda o dizer-se que se não é Católico ou Cristão praticante. A afirmação até pelos membros de governo e pessoas de nível social muito alto, é tão comum senão mais comum do que o Pai-Nosso. Muitos com orgulho e propácia se afirmam não acreditar em nada ou de se não importarem. Deístas não faltam, porque ser-se até ateísta hoje em dia já nem impressiona, nem convence. Portanto é-se deísta, panteísta, sofista, diabos a quatro, mas ser Cristão é algo que pouco brio e lustre traga. É o mesmo que dizer-se que se é Marrano em tempos de Inquisição. Para o fino e melhor é preferível dizer-se não alinhar, não registar e outros vocábulos plásticos na moda nesta nossa sociedade de chiclé colorido e perfumado que se mastiga como as vacas nos pastos.

Devo dizer à partida que amigos nossos por quem temos um alto conceito inspiraram-nos a querermos conhecer um pouco mais sobre o Espiritismo. Para já o ano passado durante a noite vieram-nos apresentar uma rodela negra no nosso relvado e daí em diante pela calada da noite, a horas de ladrões e de assassínos aspergiam o que quer que fosse pelo chão à entrada da casa. Para muita gente é até apenas uma forma de Justiça da Noite à sua maneira; é uma forma de dar liberdade à raiva, à inveja, ao despeito—coitados. Um cenário primitivo de gente das cavernas de feitiços e feiticeiras, essa forma de espiritismo à Macumba, de vodoo e de fenómenos extrasensoriais despertou em nós curiosidade e segundo os nossos conhecidos que nos garantem que o Espiritismo consta de algo mais nobre e mais salutar, acedemos à curiosidade e por aí fomos. Quarta-feira cancelamos tudo e fomos ao Centro Cultural de Angra para aprendermos um pouco mais sobre o Espiritismo.

De partida, nós que acreditamos na comunicação dos Santos e no mundo que há-de vir, que já existe de algum maneira, pela fé contíguo ao nosso, assistimos à sessão de espírito aberto. Afinal, foi na humildade que Cristo assentou a sua própria doutrina e para mais se falam em Cristo é porque há algo nesse movimento que merece ser ouvido. Aliás tenho um grande respeito pelos Mormons e outras denominações pelo grau de fé e de convicção que tocam na pessoa de Cristo. Capacitado como Cristo estava de que quem não é contra ele, é pois do lado dele, por isso tudo bem, aceitamos o chamamento. Pelo Espirito tudo é possível e quem somos nós humanos para interpretarmos o que quer que for senão pela Fé.Pediram-nos que formulassemos algumas perguntas no fim para que a autoridade convidada pudesse responder. Escrevi duas perguntas; uma incluía um comentário, “Se até os cientistas se capacitam que cada vez que descobrem algo novo, cada vez reconhecem desconhecer mais do que conhecem, que novas descobertas revelam novas dúvidas; que nem tudo está definitivamente explicado—o próprio telescópio de Hobble é um exemplo, em que devido à nova técnica temos imagens do universo que nos estão a fazer repensar muito sobre a forma em que esse universo é constituído. Em outras palavras reconhecemos que apesar de todos os conhecimentos a nível da ciência não temos a formula final para toda a realidade.” A pergunta foi pois, se temos problemas em conhecer toda a realidade física, visível, como poderemos fazer afirmações categóricas sobre o mundo invisível?Como meti o pés entre as mãos, a pergunta confusa não mereceu ser mencionada em público, ficou para outro dia. A minha segunda pergunta era como se reconciliava a noção dos dons do Espirito Santo e o Espiritismo? A essa, foi a vez do apresentador meter os pés entre as mãos e passar a falar das Festas do Espírito Santo na ilha, no exagêro hedonístico da juventude, no consumo do alcoól e droga que está a levar a sociedade à perdição.

Fiquei esperando para que nos permitissem uma sessão de perguntas e comentários em secção aberta, mas tal não aconteceu. Então quando o tal apresentador deixou o púlpito, passei eu a cumprimentá-lo e a repetir a pergunta. Fi-lo compreender que o que estava interessado era nos dons do Espírito Santo, se esses não encabeçavam o Espiristismo como uma realidade surprema que explicaria todo o fenómeno de falar línguas, contactar com os Espiritos, etc.? O Senhor primeiramente voltou a reiterar que “as Festas,” ao que eu afirmei, que não estava interessado nas festas, mas sim no Poder ou Realidade do Espirito Santo, ao que ele olhando à sua roda e sabendo-nos isolados afirmou que “Nós não acreditamos no Espirito Santo. Os espiritos bastam.” Bem, com essa golada como soco no estômago, fiquei eu para trás e deixei-lo passar. Para mim, quem não acredita no Espirito Santo, não acreita em Cristo e não acredita em Deus, tão fácil como isso.

À pergunta se “Foi o ovo ou a galinha?” sabemos bem que estamos perante um mistério de gênese. A Trindade é uma realidade tão básica como isso; tão fácil como a H2O ser água, a combinação de oxigênio e hidrogênio virar a gêlo, virar a vapôr e a chuva se fôr preciso; a luz do Sol ser do Sol e de si mesma ao mesmo tempo, e toda a Vida sobre a Terra ser uma expressão dessa luz e da água num elã misterioso que compõe uma realidade tão simples e tão difícil como a pergunta de “Quem foi primeiro, o ovo ou a galinha?” que mutuamente se impõem, incluiem como se excluiem.

Ora Deus criou a criação e não vice-versa. O Espírito da mesma forma como força criadora não depende de Espírito algum para sua essência. Cristo, que eu saiba deu aos porcos a honra passageira de domicilio para os espiritos e fê-los todos saltar um barranco. Até que, já Espirito perfeito foi o próprio Lucifer. O problema dele como de muito “espirito,” hoje em dia é esse mesmo, terem uma vontade maior do que o respeito e Amor por Deus. A sua vontade e sua sabedoria quer sobrepôr e ultrapassar aquela do próprio Criador.Pois acredito firmamente que , quem vê o Espirito Santo vê Cristo e quem vê Cristo vê o Pai; os três uma realidade tão única e tão igual que simplesmente nos dão voltas à cabeça. Para mim quer um Deus que me faça isso e não um Deus que tenha sido criado à minha imagem e semelhança. Imaginem as formigas quererem formular todo o conhecimento que possam adquirir do mundo humano pelos seus sentidos, por cheiros e vibrações!

Da mesma forma querer explicar o mundo de Deus pela ciência é coisa que não consigo encabeçar. Isso é, quando o espiritismo através de Allan Kardek quer convencer que pelo método científico se podem explicar realidades sobrenaturais, já fiz a minha prova, falta-lhes o Espirito Santo, é só.

Silvério Gabriel de Melo